terça-feira, 11 de dezembro de 2007

Givers & Takers

Nesta altura do ano em que damos e recebemos, partilhamos, oferecemos e ajudamos, pus-me a pensar sobre o que damos e recebemos nas relações interpessoais que estabelecemos com os que nos rodeiam. Com o pai e a mãe, o marido, a prima, a tia, o amigo, a irmã, o cunhado, a vizinha, o chefe e a colega.

Algumas delas, pensamos nós, são autênticas "ralações", pelas preocupações, dores de cabeça ou tristezas com que nos salpicam surpreendentemente ou de forma perfeitamente expectável. Mas somos sempre nós os culpados. Somos sempre nós que deixamos, que nos queremos preocupar e isso incomoda, que damos demais sem receber o merecido em troca, que fantasiamos e nos desiludimos. Não são os outros, somos nós, tudo nós. Quem nos manda ter expectativas? Quem nos manda acreditar em palavras irreais? Quem nos pede para gostarmos e tomarmos conta? Quem nos manda ansiar por aquele sorriso quando oferecemos carinho e atenção?


Acredito que todas as relações sociais são feitas de trocas. Sim, isso mesmo, trocas. Trocas que podem não ser proporcionais, equilibradas. Mas se damos amor, esperamos receber amor de volta, se mostramos um sorriso, não ficamos satisfeitos se nem nos olharem quando falam connosco. Se oferecemos algo, um obrigado sabe bem, mas um beijo ou abraço substitui perfeitamente. Claro que conscientemente não queremos nada em troca quando damos, mas queremos. Claro que quando enviamos uma mensagem carinhosa não pedimos o mesmo em troca, mas ansiamos. Claro que quando damos voluntariamente o nosso tempo ou recursos a quem precisa não esperamos retribuição nem uma palavra de agradecimento, basta sentirmos que fomos úteis e fizémos a diferença naquele momento, essa é a moeda de troca.


Acredito também que em todas as relações existe um giver e um taker, em determinado momento. Somos tendencialmente mais givers ou takers, mas podemos trocar estes papéis consoante a pessoa com quem nos estamos a relacionar. Por outro lado, podemos adoptar estes dois papéis com a mesma pessoa, em diferentes fases das nossas vidas, ou mediante as diferentes necessidades do outro. Quando penso em dar e receber, não me limito obviamente a bens materiais, mas a tempo, atenção, gestos e atitudes.


O mais curioso de tudo isto é a capacidade de nos acomodarmos confortavelmente à poltrona dos givers ou à dos takers, não sendo capazes de inverter os papéis para equilibrar a troca. Tantas vezes e tantos de nós conseguimos, em determinadas fases da vida, amar incondicionalmente, sem receber o que queremos reciprocamente, mas a alimentar a vontade de dar mais de nós mesmos, a oferecer o melhor de quem somos, porque nos convencemos que o que recebemos de volta chega... mas às vezes não chega (os pais talvez sejam a excepção, mas mesmo eles esperam algo de volta). Porque mesmo quando recebemos uma, duas e mais outra patada voltamos a insistir e a dar mais, ingenuamente e na esperança que desta vez seja diferente...


Poderíamos pensar que a poltrona dos takers é sem dúvida a mais confortável, mas nem sempre é o caso. Há quem simplesmente se habitue a dar, dar, dar e não consiga receber, se sinta desconfortável com um elogio ou presente, ou ainda quem dê com intenção de alimentar a auto-estima com reconhecimento, de manipular, cobrar e/ou controlar o outro, mesmo de forma inconsciente e indirecta. E existem também os takers natos, por vezes egocêntricos e egoisticamente aproveitando-se da generosidade insistente dos givers, que por vezes não sabem dizer não.


O importante (para não variar), é tentar encontrar o equilíbrio entre estes papéis, por vezes afectado por sentimentos ofuscantes, que não nos permitem perceber o quanto damos de nós próprios ou o quanto recebemos.

9 comentários:

mik@ disse...

olha nem mais :) viva o espirito natalicio que devia estar presente todo o ano.
tens uma dadiva no meu blog :)

Carol Barcellos disse...

Quando o giver é sincero, recebe cada ingratidão dos takers. Acabei de receber agora, depois de 4 anos giving sincere love. E o taker me disse Thanks! Nunca vou mee squecer de vc! Agora siga sua vida, vc é jovem, e vai encontrar outra pessoa. Não me arrependo de ter sido giver, e vou continuar sendo, pq é a minha natureza. E talvez ele continue sendo taker, pq é a natureza dele.

Amei o texto! Parabéns pelo blog, é muito legal!

PrimaNocte disse...

Fantástico! É mesmo assim...

Mozambique Greetings...

Mary disse...

concordo totalmente*

NI disse...

Subscrevo na íntegra.

Bjs fofa

Hydrargirum disse...

Oh pra mim a ser giver:
Que excelente dissertação Jasmim!!!!

Houvesse mais quem pusesse em prática...esta dualidade giver-taker...e se calhar as relações interpessoais não estariam assim...desgastadas e cada um por si....

Eu por cá, tento fazer o meu melhor para alternar entre um papel e outro...mas confesso que sim...que me atrapalho e me embaraço todo com um elogio por exemplo....mas estou a tentar corrigir:)....

Jinhos:)

Sadeek disse...

Olá "Flor",

É pá....como em tudo na vida há que saber dar e receber!!! Caso contrário......vai dar "mega"....
Se não fôr assim vai-se revelar um egoísmo que vai dar cabo de uma relação de certeza, seja ela amorosa, de amizade ou profissional.

BEIJOS

Mar disse...

Jas, queria enviar-te um e-mail a avisar que vou mudar de espaço, mas não encontro por aqui. Podes mandar-me tu um para mardeavessos@gmail.com? Beijinhos

Pearl disse...

Cá estou eu, conforme prometido!!!
E confesso muito agradavelmente surpreendida...
Acho que o que expuseste e a forma como o fizeste está brilhante!!!

"Porque mesmo quando recebemos uma, duas e mais outra patada voltamos a insistir e a dar mais, ingenuamente e na esperança que desta vez seja diferente..."
Estavas a ler-me qundo escreveste esta parte???

Gostei mesmo muito e voltarei!
:o)))***