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terça-feira, 22 de junho de 2010

Com os pés no chão...

Foto: Flickr
Tenho recebido alguns comentários sobre a minha ausência no blog. Simpáticos, todos eles, normalmente encorajadores ou reveladores da expectativa e da curiosidade dos leitores assíduos ou ocasionais deste espaço.
Sim, tenho muitas saudades, claro! De escrever, de ser lida e comentada, mas principalmente de me ausentar neste refúgio bom que são as palavras e os pensamentos.

A menor regularidade com que escrevia e a satisfação oscilante do que via aqui publicado, deram espaço a um afastamento natural.
Fui dando prioridade a outras necessidades quotidianas e mais pragmáticas, que não são as minhas actividades predilectas mas que ajudam no bem estar de qualquer um (planear, organizar tarefas, arrumar, antecipar...). Tenho uma facilidade enooorme em abstrair-me enquanto penso, sonho e escrevo... e consigo passar horas assim, com a "cabeça na lua". Obriguei-me a andar com os pezinhos no chão, e o prazer da escrita ficou para mais tarde... Guess what? Continuo a ter vontade de escrever, apesar da dificuldade em desenferrujar-me... É como voltar a fazer desporto, depois de algum tempo parada!

Pode ser que consiga manter os pés no chão e fazer uma visita esporádica à lua, já que gerir prioridades é essencial, mas sem esquecer o que nos dá prazer na vida.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Day & Night


"There are as many nights as days, and the one is just as long as the other in the year's course. Even a happy life cannot be without a measure of darkness, and the word 'happy' would lose its meaning if it were not balanced by sadness."

- Carl Jung -

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Mala de viagem 2010

Imagem Flickr

A metáfora da vida como uma viagem é muito usada, talvez porque assenta que nem uma luva, na vida de qualquer um... dos que viajam, dos que permanecem quietos. Dos que querem fazer mais da vida e dos que se cruzam com muita gente.


Nos primeiros dias do ano, dei comigo a pensar nesta viagem que é a vida, para os meus votos, desejos, objectivos ou resolução para este novo ano. E neste exercício, inevitavelmente contempla-se o percurso do ano que passou. Um caminho repleto de irregularidades no "terreno", com desafios e novidades inesperadas e com bifurcações que obrigaram a escolher o que seria melhor para mim. Uma jornada intensiva que me deu perspectivas novas sobre quem me acompanhava e quem deixou de fazer parte do meu "barco". Percorri todo o tipo de estradas, desde as rotinas mais monótonas e previsíveis como as nacionais, às situações mais desafiantes e modernas como as auto-estradas.

Atravessei nesta etapa um Inverno rigoroso e uma Primavera de muito "cultivo" e aproveitei um Verão feliz, muito feliz! O Outono acabou por me trazer a típica sensação de regresso às aulas, que implicou um friozinho na barriga, o desfazer das malas, guardar as recordações na gaveta da memória e o bronze da praia debaixo das mangas compridas do trabalho...

E apesar de esta minha resolução, tão minha e só minha, chegar tarde no calendário (não faz mal, nunca fui muito precoce em nada!) serve apenas para expressar o meu desejo de não ficar parada na mesma estação, e de transportar na bagagem apenas o essencial... a perspicácia e a intuição para fotografar a sinceridade e a essência dos que me rodeiam, roupa ligeira para me expor o suficiente ao "clima" local, mas agasalhos para me protegerem das "friezas" ocasionais; uma memória fresca para recordar com carinho os momentos especiais e não me esquecer da morada das "minhas pessoas", quando as visitar e ouvir, com paciência e generosidade nos bolsos; tranquilidade e gratidão para apreciar as paisagens à minha volta sem pressas... e coragem para arriscar por caminhos desconhecidos!
E nada de andar carregada com tristezas e preocupações de um lado para o outro...
De certeza que não precisarei de poupar sorrisos nesta minha mala de viagem... esses não pesam nada e nascem numa fonte inesgotável!

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Percepção


A forma como encaramos o mundo que nos rodeia, a realidade, é a nossa perspectiva, a nossa percepção. É apenas uma representação mental, que pode ser distorcida. É a nossa visão sobre uma pessoa, situação ou objecto. É uma perspectiva inevitavelmente influenciada por quem fomos, somos e seremos e por quem temos à volta.

Só vemos o que queremos (ou conseguimos), e comportamo-nos "accordingly". E decidimos congruentemente. Sobre nós próprios, os outros, sobre tudo na vida.

Se percepciono que este espaço já não tem tanta piada e que ando sem inspiração, que mais vale "dar um tempo" às palavras e poupar os olhos a quem me lê, da "cerebrite" que me compele a escrever umas coisitas medianas... afasto-me por um tempo.

Um afastamento natural, sem discussão nem "baba e ranho" à mistura, típica das relações ambivalentes e imaturas. Mas também um afastamento sem justificações, promissor de um regresso esperançado (da minha parte).


A saudade já pairava há muito sobre os meus dedos ansiosos e viciados, mas os neurónios da escrita teimavam em não desenferrujar.

Ainda bem que a perspectiva pode evoluir e transformar as nossas vontades em acções, por mais simples que sejam.

Escrever é arriscar e concretizar quem sou, é tornar-me eu própria...
É deitar cá para fora um pouquinho do que vai cá dentro.
É organizar ideias ou sonhar que sou uma personagem diferente.
E eu gosto, muito. :D

Não faz mal se a minha percepção me segredar que sou boa nisto umas vezes e má noutras, provavelmente é mais real do que se disser que sou sempre mediana.

Hoje decidi escrever... sempre que me apetecer.

sábado, 23 de maio de 2009

Generosidade

Cruzamo-nos, ao longo da vida e no quotidiano com o mais variado tipo de pessoas, com as mais diversificadas espécies de atitudes. As atitudes podem mudar, as pessoas mudam, mas a forma como os nossos olhos as encontram também é diferente. Ganhamos surpresas, perdemos inocência e construímos barreiras. Porque é preciso erguê-las para nos tornarmos mais fortes e menos expostos.

Para compensar e equilibrar a construção da couraça defensiva, surgem personagens subtis neste filme que é a vida. Pessoas que são espontaneamente generosas, que naturalmente dão o que de melhor têm, que inconscientemente oferecem palavras meigas e gestos sinceros, que sem intenção pensada querem o bem do outro sem moeda de troca.
Generosas são aquelas como as estrelas mais discretas e pequenas, mas muito brilhantes... São as pegadas na areia mais difíceis de apagar pelo mar. A generosidade é um bem invisível que tantas vezes nos esquecemos de apreciar. É a mão que nos segura bem forte, mesmo numa corrente turbulenta. É quando sentimos que se faz tudo o que for preciso para nos roubarem um sorriso de bem estar. É sermos incondicionais sem ferirmos ninguém. É a pureza de dar sem esperar o mesmo de volta. É um pedaço muito grande do amor e da amizade. É um bem querer muito doce.

domingo, 15 de março de 2009

Relativo

Às vezes perdemo-nos tão estupidamente no meio das nossas preocupações, dos nossos problemas tão nossos e tão sérios, dos conflitos e situações gravosas das nossas vidas, que nos esquecemos de relativizar e desdramatizar. Que nos esquecemos de aproveitar o que de bom tem a vida, que fazemos questão de ter pena de nós próprios e dos nossos, que nos esquecemos de olhar para o lado e perceber que somos uns sortudos neste mundo louco recheado de mortes irónicas e doenças surpresa.

É bom lembrarmo-nos que tudo é relativo, nada é permanente ou garantido e o que realmente importa é o presente e como vivemos o momento do "agora".

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Secrets & Lies

Segredos. O oculto desejado. Um mistério guardado numa boca perdida, esquecido numa caixinha segura, lá dentro da amizade, ou prestes a ser usado como uma bomba detonada, por quem o apanha mal-intencionadamente.

Um segredo pode ser uma partilha, um desabafo, um colar de palavras que precisa de ser exibido mas ao mesmo tempo escondido. Um segredo pode ser algo que se sabe inadvertidamente mas se esquece por não ser nosso.
Os segredos são como aquelas caixinhas de objectos importantes que guardamos quando somos miúdos, como os bilhetes de uma ida ao cinema muito especial, uma concha de mar de um verão quente e sorridente, um pin da adolescência com significado ou a primeira carta de amor recebida... Guardamos essa caixinha no fundo de um armário esquecido, enterrada no esconderijo do quintal ou do jardim das férias, para um dia mais tarde a recuperarmos... ou para que fique eternamente selada em momentos gravados pela saudade e esquecidos pelo tempo.
Todos nós temos segredos, nossos, dos outros. Somos ensinados desde cedo que os segredos são importantes como tesouros, senão, não os usaríamos com 6 anos para conquistar uma amizade ("Vou contar-te um segredo..."). É uma espécie de moeda de troca para uma amizade ou relação mais forte. Se partilhamos um segredo com alguém, esse outro é especial... supostamente. Sente-se importante porque é o único ou dos poucos a ter uma informação preciosa. É um voto de confiança, ou talvez de ingenuidade, porque quem o passa a deter, pode usar essa informação como quiser: guardar, partilhar com outros, deturpar, espalhar. O segredo torna-se então num trunfo, que mostra a verdadeira natureza da pessoa que o tem, ou da relação que as envolve. Será que existem mesmo segredos que morrem connosco? Será que existem segredos que têm mesmo de ser revelados... ou viver na ignorância é viver feliz?




A complexidade dos segredos não se fica por aqui. Há segredos que são mentiras, que não existem, que são fruto da imaginação, do calculismo ou da maldade de alguns. Aqui, podem ser incluídas aquelas monstrinhas, as intrigas. E estas crescem desmesuradamente, mas ainda mais quanto a importância que se lhes dá. Segredo sem importância, "cusquice", segredo "cabeludo", intriga, mentira, nem sempre é fácil distinguirmos os níveis desta escala volátil.




As relações humanas são complexas demais para as compreendermos na sua plenitude. Mas com paciência e jeitinho, a compreensão vai aparecendo, sempre em forma de desafio e aprendizagem. Ou isto sou eu a convencer-me de que não há pessoas más...

domingo, 25 de janeiro de 2009

Sonhos


Que o caminho até aos meus sonhos seja conduzido sempre de forma sóbria, aventureira mas ponderada, com classe, originalidade e harmonia, características que associo a esta magnífica Vespa. E de preferência sempre com um sorriso nos lábios e sem magoar ninguém na estrada complicada da vida...


Boa semana!

domingo, 18 de janeiro de 2009

A vida é feita de legos

Gostava de pensar menos. Pensar é cansativo, desgastante. À pala de pensar demais é que estou sempre com estas dores na cervical e contracturas insuportáveis, a culpa é deles, dos pensamentos. No fundo, a culpa de tudo o que nos acontece é dos pensamentos e dos sentimentos.



O pior é que isto é um ciclo vicioso, e não podemos atirar as culpas para mais ninguém para além de nós próprios! Sim, por exemplo, quando elegemos aquela pessoa como uma grande amiga ou melhor amiga, é porque NÓS pensamos que ela reúne condições para isso, que é espectacular, parecida connosco nas opiniões e perspectivas, que nos dá o ombro quando precisamos e ouve as maiores parvoíces quando queremos desabafar.


Mas somos nós que construímos a pessoa ideal, o amigo ideal, o amor ideal. Será que elas têm mesmo aquelas características que gostamos tanto? Ou o sentimento positivo que nos prende oculta as imperfeições, relativiza os defeitos, esconde as verdadeiras atitudes que não vemos? E depois sentimo-nos desiludidos, coitadinhos de nós, tão ingénuos, incrédulos por não responderem ao telefonema ou à mensagem, por terem sido frios quando em tempos eram incondicionais! Bahh!


E a partir desse momento começamos a ver de outra forma aquela pessoa... "se calhar não é tão perfeita, se calhar eu até vi mal"... Pois é... a "culpa" é só nossa, por criarmos expectativas altas, por esperarmos demais, por acreditarmos só no lado bom e recusarmo-nos a aceitar o "lado lunar". Ou por não conseguirmos perceber que as relações mudam, evoluem ou desevoluem, mesmo que continuemos a considerar aquela pessoa um amigo próximo com quem podemos contar, passamos a representar um amigo distante ou um conhecido.


Mas o que assusta mesmo é percebermos que aquela pessoa foi sempre assim, nós é que não vimos. Construímos a nossa realidade como nos convinha, como quisémos, para que as nossas necessidades fossem satisfeitas. Será que quando vemos os outros, nunca conseguimos entender como são na sua plenitude? É difícil prever o comportamento do outro, adivinhar o que pensam e sentem...


Que vida maluca, onde parece que andamos a brincar aos legos constantemente, a construir imagens dos que nos rodeiam que depois se desmoronam e temos de voltar a construir um modelo mais feio!! Começo a questionar-me se o que vejo dos outros é sempre ficção construída por mim e se é impossível ver a realidade.

Ontem recebi um mail que dizia que "ninguém é perfeito enquanto não te apaixonas". Isto faz-me reforçar a ideia que quando estamos apaixonados, encantados, muito ligados aos outros não nos apercebemos de outras coisas menos boas... não nos apercebemos que afinal até são egoístas, auto-centrados ou pouco humildes.

Talvez por isso as amizades duradouras demonstrem que é nos nossos piores momentos que se vê quem gosta de nós... e que o amor não é efémero como a paixão cega, e integra, aceita e valoriza todas as imperfeições do outro.


Será que vou ter de construir legos relacionais para sempre?

sábado, 21 de junho de 2008

Sentir o sentimento

A manhã foi produtiva ao nível do desenvolvimento pessoal. Ajudou-me a sentir o que estou a sentir, em vez de apenas pensar sobre o que sinto. Sentimentos ambivalentes, de optimismo e ansiedade, felicidade e tristeza, aproximação e rejeição, disponibilidade e impaciência, habitaram a minha semana. Hoje, a consciência do meu estado de espírito tornou-se mais saliente, mais viva, e acabou por realçar a ansiedade pelo que aí vem na próxima semana. Preciso de uma pausa, mas falta a recta final. Quero dedicar o tempo necessário, mas só há o tempo disponível, as sobras do que se gasta pelos imprevistos e as obrigações.



Cheguei a casa solitária e consciente, mas também inquieta. Obriguei-me à tal pausa, para descontrair e não pensar, antes de mergulhar no trabalho final. A fome não chegou, por isso não cumpro o almoço.


Acendo um incenso calmante e deito-me no sofá por instantes. A incapacidade (talvez culpa) de me centrar no meu descanso é tanta que me levanto após uns segundos, porque entendo os miares da Mel como um pedido de atenção nesta semana com muita ausência. Tento de outra forma, e vamos as duas à varanda. As brincadeiras felinas reconfortam-me, por excepção acendo um slim e inspiro profundamente... devolvo um sorriso ao sol. Transporto-me para perto de mim ao centrar-me naquele espaço simples, sem pensar na gramática complexa dos sentimentos. Ao fim de uns momentos, fecho o olhos e a tensão dilui-se, como açúcar num café quente. Estou ligeiramente tonta e descontraída. A Mel dorme agora tranquila e preciso da escrita para me organizar. Vou começar... porque está quase a acabar.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

Picante


Piri-piri. Picante. Malagueta. Adoro comida picante, picante o suficiente para me apurar os sentidos. Há quem não goste, quem não tenha aprendido a gostar. É isso mesmo, o picante aprende-se a gostar, a saborear, a apreciar.

Piri-piri em pó, seco, fresco, molho picante, malagueta vermelha ou verde, no achár de manga ou de limão, em forma de jalapeños ou pimentos padrón, a acompanhar os mais variados pratos… quando q.b., torna a refeição mais apetecível.
Não gosto de picante em tudo, mas quase… não gosto de muito picante, apenas o suficiente… O suficiente para realçar o sabor suculento de um bife, perfumar um prato de caril ou aquecer um franguinho assado.

O picante que enfeita de vermelho verdadeiro o que aprecio com o olhar, acalora e provoca o meu paladar como um desafio invencível e transforma o meu odor num complexo e único mistério, esse, é irresistível.

O picante atrevido, camuflado com um perfume suave mas sementes potentes, que se entranha na pele e no sangue e arde como um escaldão, incendeia as vias respiratórias e ri-se do pingo no nariz e do suor que não se disfarça… esse, é uma tentação que vive no limbo entre dor e prazer, que se quer e não se aguenta, que se deseja mas dói, que se evita mas persegue.

Mas como em tudo na vida, adaptamo-nos… e o picante atrevido transforma-se num picante mais suave e tolerável, que passamos a saborear mais frequentemente e sem desafio maior. E então, podemos procurar uma nova aposta, subir a parada, com um picante mais picante, ou retirar a criatividade do baú empoeirado e usar o picante que temos de formas originais e inovadoras, que nos satisfaçam tanto ou mais como nas primeiras receitas.

Importa saber o quão picante queremos, o quão picante aguentamos, o quanto desejamos…

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

Dias

Dias repartidos entre preguiça e trabalho, têm sido assim, os últimos. Dias de férias que por opção são destinados a fechar um capítulo.
Visto-me de prática, mentalizo-me de empenhada e todas as manhãs me dói a cabeça, por mais que não lhe dê importância, ela faz-se de forte, a dor.
“Lá terá de ser um Benuron a seguir ao almoço improvisado”, penso eu. Não são preocupações, não é o cansaço, talvez as consequências da nova rotina, convenço-me.
Ando pensativa, mas tranquila. Faz-me bem o silêncio da casa, quebrado pelos miares de mimo da minha doce felina, a quem sorrio por me aconchegar a alma.
O dia está solarengo, oiço os risos e as brincadeiras dos miúdos da escola, que correm quando ecoa a campainha do recreio.
Poderia ter de me fazer refém por obrigação e responsabilidade, mas não é o caso, não me importo de não sair há dois dias. Sabe-me bem o sossego que preciso para o trabalho, o estar disponível para mim, para me distrair com uma música ou descansar no sofá com umas linhas do Equador.
À noite, um jantar caseiro e 2 episódios de Lost com a melhor companhia possível.
Continuo pensativa… e tranquila.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

Desilusões

A desilusão é definida como perda de ilusão, desengano, decepção. Muitas vezes sentimo-nos assim, desiludidos, decepcionados. Porque esperávamos mais de um sítio, de uma experiência, de uma atitude ou comportamento, da nossa instituição, de alguém a quem queremos bem...


Essa parva, a quem chamamos Desilusão, é filha de uma Expectativa vadia que deambula no sótão dos pensamentos e ocasionalmente espreita pelas janelas das Vontades. Mas somos nós que lhe damos abrigo, à vadia. Permitimos que ela cresça desmesuradamente, que componha o sótão como bem quer, mas sempre de acordo com a decoração do que já existe nesse espaço.

A Expectativa surge quando menos esperamos, de fininho e sem darmos conta. Diz-nos ao ouvido coisas tão doces e e sinceras que levitamos... Oferece-nos umas lentes especiais para os olhos, que nos faz ver só o que queremos ver e não o que lá está tão transparente. Tacteamos constantemente sinais que confirmem a Expectativa, sem margem para dúvidas. E ela vai simplesmente crescendo, mais e mais...até nascer a Desilusão, a bastarda pela qual não esperávamos e não queremos, completamente diferente da sua mãe Expectativa.

Tudo isto porque criamos situações e personagens fictícias, que são tão desejadas como os contos de fadas, porque pensamos que aquela pessoa como amiga nunca teria uma atitude semelhante, porque às vezes preferimos acreditar na fantasia e no que queremos idealmente para nós, porque acreditamos merecer mais e não o que nos dão. Porque vemos aquela pessoa como nós queremos que ela seja e não como realmente é.


Se não esperarmos demais, não nos desiludimos... E se esperarmos o aceitável? Pois, são conceitos relativos, não são? Às vezes sentimos que esperamos apenas o "normal" e lá vem a Desilusão a caminho....

Mas se nos centrarmos mais nas outras coisas, nos outros e no que pensam, no que dão e parecem ser... temos mais probabilidade de nos desiludirmos do que se nos centrarmos em nós, no que queremos, somos e pretendemos dar. Assim a expectativa em relação aos outros e outras coisas não cresce, não importa tanto, não provoca tantas nódoas negras.


Criarmos expectativas faz parte de nós, como figurinhas andantes, falantes e "relacionantes" neste planeta. As desilusões fazem-nos crescer uns bons centímetros por dentro, e às vezes precisamos de várias para que o crescimento seja notório. E, chegados a um certo ponto, tornam-se desnecessárias e sem propósito... essas são as que temos de evitar.

terça-feira, 11 de dezembro de 2007

Givers & Takers

Nesta altura do ano em que damos e recebemos, partilhamos, oferecemos e ajudamos, pus-me a pensar sobre o que damos e recebemos nas relações interpessoais que estabelecemos com os que nos rodeiam. Com o pai e a mãe, o marido, a prima, a tia, o amigo, a irmã, o cunhado, a vizinha, o chefe e a colega.

Algumas delas, pensamos nós, são autênticas "ralações", pelas preocupações, dores de cabeça ou tristezas com que nos salpicam surpreendentemente ou de forma perfeitamente expectável. Mas somos sempre nós os culpados. Somos sempre nós que deixamos, que nos queremos preocupar e isso incomoda, que damos demais sem receber o merecido em troca, que fantasiamos e nos desiludimos. Não são os outros, somos nós, tudo nós. Quem nos manda ter expectativas? Quem nos manda acreditar em palavras irreais? Quem nos pede para gostarmos e tomarmos conta? Quem nos manda ansiar por aquele sorriso quando oferecemos carinho e atenção?


Acredito que todas as relações sociais são feitas de trocas. Sim, isso mesmo, trocas. Trocas que podem não ser proporcionais, equilibradas. Mas se damos amor, esperamos receber amor de volta, se mostramos um sorriso, não ficamos satisfeitos se nem nos olharem quando falam connosco. Se oferecemos algo, um obrigado sabe bem, mas um beijo ou abraço substitui perfeitamente. Claro que conscientemente não queremos nada em troca quando damos, mas queremos. Claro que quando enviamos uma mensagem carinhosa não pedimos o mesmo em troca, mas ansiamos. Claro que quando damos voluntariamente o nosso tempo ou recursos a quem precisa não esperamos retribuição nem uma palavra de agradecimento, basta sentirmos que fomos úteis e fizémos a diferença naquele momento, essa é a moeda de troca.


Acredito também que em todas as relações existe um giver e um taker, em determinado momento. Somos tendencialmente mais givers ou takers, mas podemos trocar estes papéis consoante a pessoa com quem nos estamos a relacionar. Por outro lado, podemos adoptar estes dois papéis com a mesma pessoa, em diferentes fases das nossas vidas, ou mediante as diferentes necessidades do outro. Quando penso em dar e receber, não me limito obviamente a bens materiais, mas a tempo, atenção, gestos e atitudes.


O mais curioso de tudo isto é a capacidade de nos acomodarmos confortavelmente à poltrona dos givers ou à dos takers, não sendo capazes de inverter os papéis para equilibrar a troca. Tantas vezes e tantos de nós conseguimos, em determinadas fases da vida, amar incondicionalmente, sem receber o que queremos reciprocamente, mas a alimentar a vontade de dar mais de nós mesmos, a oferecer o melhor de quem somos, porque nos convencemos que o que recebemos de volta chega... mas às vezes não chega (os pais talvez sejam a excepção, mas mesmo eles esperam algo de volta). Porque mesmo quando recebemos uma, duas e mais outra patada voltamos a insistir e a dar mais, ingenuamente e na esperança que desta vez seja diferente...


Poderíamos pensar que a poltrona dos takers é sem dúvida a mais confortável, mas nem sempre é o caso. Há quem simplesmente se habitue a dar, dar, dar e não consiga receber, se sinta desconfortável com um elogio ou presente, ou ainda quem dê com intenção de alimentar a auto-estima com reconhecimento, de manipular, cobrar e/ou controlar o outro, mesmo de forma inconsciente e indirecta. E existem também os takers natos, por vezes egocêntricos e egoisticamente aproveitando-se da generosidade insistente dos givers, que por vezes não sabem dizer não.


O importante (para não variar), é tentar encontrar o equilíbrio entre estes papéis, por vezes afectado por sentimentos ofuscantes, que não nos permitem perceber o quanto damos de nós próprios ou o quanto recebemos.

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

Pensamento do Dia



Pérola de sabedoria proferida por um colega de trabalho, hoje, a propósito da necessidade que algumas pessoas têm de sobressair :


"O gajo que se põe em bicos de pés é um gajo pequenino"
J.A.V. (que acrescentou: "Esta frase foi dita por mim... hoje!")

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

"Complicadices"



Complicar as situações de vida é uma actividade inata ao ser humano... ou não. "Complicamos" mais do que as outras espécies porque pensamos, associamos, comparamos, julgamos e decidimos. Não conseguimos (nem queremos) simplificar ao máximo o que nos chega do exterior.


Mas complicar, no verdadeiro sentido da palavra (e qual é, o verdadeiro?) é algo ainda mais complexo, que ultrapassa as características inatas, é algo que aprendemos de pequeninos, que se vai ganhando com a idade e as experiências de vida (perdemos alguma espontaneidade e simplicidade, portanto!). Complicamos porque não nos contentamos com o mais simples, porque queremos ter um espírito crítico, porque precisamos de interpretar todas as palavras, gestos e atitudes, porque precisamos de complexificar. Tudo isto é necessário, mas em exagero é complicar... quando às vezes não é preciso.
Os homens queixam-se que as mulheres são muito "complicadas". E não é que se calhar até têm uma certa razão? Não há problema nenhum, nós adoramos dificultar-lhes a vida (complicar!) para perceber se estão à altura dos seres privilegiados em inteligência que são as mulheres (ehehehe!).
Temos de admitir, as mulheres MUITAS vezes são mais complicadas. Complicam na relação de amizade, porque a "amiga do coração" teve uma atitude a que não acharam graça nenhuma, foi inconveniente (Qu'horror!) e não teve consideração. Criam conflitos onde eles não cabem e geram-se intrigas num piscar de olhos (plink)!

Pior do que isso, é a inveja, aquele sentimento complicado mas simultaneamente primário, mesmo entre amigas: aquela inveja que não é admitida nem sozinha na WC vazia e transforma-se em crítica: porque a "gaja" é magra demais (querias, não querias?), porque a outra é uma mamalhuda e fica péssima de decotes (sensual, queres dizer) ou porque a fulana tal é uma irresponsável, gasta imenso dinheiro em roupa (onde será que comprou?), ou porque arranjou um emprego instável (farta-se de viajar e ganha bem).

Nas relações afectivas, tantas vezes complicam, não acreditando no que lhes dizem e mostram. Quando eles mostram que querem só umas boas quecas, elas, ingénuas, fantasiam, pensando, "mas ele chamou-me queridinha, quer dizer que sente mais alguma coisa por mim... (Dahh)" e deixam-se levar pelo encanto construído nas próprias cabecinhas. Quando eles estão perdidamente apaixonados e são claros nas palavras, elas não acreditam, relativizam - "ele diz isso a todas" e tornam-se inseguras, duvidam, dizem que NÃO quando querem dizer SIM, interpretam o "Tens um sorriso lindo" como simpatia e amabilidade, mesmo quando o olhar embevecido não mente.

Os homens, sim senhor, são mais práticos, directos e pragmáticos. Não criticam mesquinhices nem entram em intrigas (alguns!), quando se chateiam com os amigos no futebol ou nos copos dizem umas car*lh*das e no dia seguinte está tudo numa boa, e a curiosidade da vida alheia não os consegue satisfazer como a vitória do clube preferido ou um jogo de Playstation.

Simplificam, abreviam e por vezes fogem a sete pés de casos ditos "complicados". O que nem sempre ajuda, em situações que tinham de ser aprofundadas, faladas, discutidas, pensadas e resolvidas. Deixam relações em stand by porque não lhes apetece resolver e conversas por falar porque não vale a pena complicar. Deixam escapar umas palavras doces num momento e afastam-se com frieza a seguir porque se querem defender da potencial "complicação".
Não sei o que será melhor, complicar ou simplificar demais. A vida não teria piada se homens e mulheres fossem dois géneros simples em tudo ou sempre na mesma sintonia. Não existiria desafio para os homens se não tivessem que decifrar a complicação (saudável) das mulheres.
Complicado para nós, mulheres, é percebermos a "descomplicação" dos homens e a sua mascarada frieza.

Como é, querem complicar ou descomplicar?


PS1-Sim, é claro que estereotipei abusivamente, mas apeteceu-me pensar para os extremos. Há mulheres pragmáticas e homens supeeer complicados e emotivos. (Ah, pois há!)
PS2- Hoje apeteceu-me escrever, escrever, escrever, depois da apresentação que correu bem, e já tá! Escreviiii...
PS3- Se chegou ao fim do post, parabéns! Ganhou o prémio de "Paciência inacreditável para ler posts super hiper longos e complicados"

terça-feira, 13 de novembro de 2007

O valor das coisas


"O valor das coisas não está no tempo em que elas duram,
mas na intensidade com que acontecem.
Por isso existem momentos inesquecíveis,
coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis."

Fernando Pessoa

sexta-feira, 9 de novembro de 2007

Bip Bip


Se já tivesse uma destas, ia passear junto ao mar com os cabelos a esvoaçar! Ainda bem que é sexta feira, há dias em que já não conseguimos ouvir mais ninguém, nem os nossos pensamentos! Bom fim de semana!

domingo, 28 de outubro de 2007

Castelo de Areia

Quando me consigo abstrair das rotinas diárias, por vezes penso na forma como agimos enquanto seres por quem o tempo passa a um ritmo mais ou menos acelerado, consoante a nossa vontade e necessidade.


Por um lado, temos tendência a viver numa insatisfação constante, a querermos sempre mais e melhor, às vezes mais no plano material (ter um carro melhor, uma casa melhor, roupas melhores, etc) do que no nosso desenvolvimento enquanto pessoas. Por outro lado, também identifico com frequência a tendência à acomodação, ao conforto de não se fazer nada mais para além das obrigações mínimas (em casa, no trabalho, na relação com os outros) e a manter a vidinha de sempre porque já estamos habituados, porque temos medo de mudar, porque temos medo que corra mal, porque se foi sempre bom assim, para quê mudar?


Consigo identificar estas duas facetas em mim própria, naquilo que vivi e quero viver, e encontro-me tantas vezes a ponderar sobre o futuro e o passado, que quase me esqueço do presente.


Utilizando uma expressão muitas vezes usada pelos mais velhos, "se soubesse o que sei hoje" teria feito algumas coisas diferentes no meu passado. Não é que me prenda a isso, não é que me arrependa do que fiz, sinto-me bem com o meu percurso, mas é claro que podia ter feito mais e melhor, gostava de ter "vivido" mais.


Inevitavelmente, isso faz-me pensar no futuro, naquilo que quero fazer, no que me trará satisfação pessoal e profissional, nos meus objectivos de vida... Era tão bom se pudéssemos consultar a bola de cristal do nosso futuro, pelos menos por três vezes... Eu usava um desses cartuchos agora, para saber o que vou saber no futuro, para saber que opções devo tomar, para saber se sigo a intuição ou a razão mais ponderada. Não me quero arrepender do que não fiz.


Enquanto isso, nos últimos tempos tenho vivido o presente em pause ou slow motion, deixando-me levar como uma garrafa perdida em alto mar, com uma mensagem importante no seu interior, na expectativa quanto ao seu destino (deve ser por isso que tenho dormido mais!).

Mas se tenho passado os dias num ritmo mais lento, obedecendo apenas às rotinas, no meu interior sinto os pensamentos a voarem à velocidade da luz (se acham que escrevo muito e ao pormenor, se espreitassem os meus pensamentos assustavam-se!), num turbilhão que me desorganiza e me deixa presa neste limbo entre a vontade de arriscar, de mudar e viver muito mais para além da vidinha, e a necessidade tremenda de estabilizar e sentir que tenho algo de que me posso orgulhar, de viver prosaicamente em família e numa carreira que garante o bem-estar suficiente.

E são tão fortes estes pensamentos que me assolam à cabecinha, que me vejo em dois filmes no futuro, cada um retratando uma dessas vidas... que me parecem incompatíveis.


Porque é que os sonhos de adolescente, ingénuos e utópicos, se desvanecem, se há quem consiga ir para o mundo ajudar quem precisa? Porque é que é não podemos ter a aventura, o trabalho gratificante, as viagens e a casa, os filhos e a relação estável simultaneamente?


Não sei se está na hora de assentar os pezinhos na terra e despedir-me dos castelos de areia ou de subir mais alto...


A verdade é que não temos as sete vidas dos gatos e, como diz uma querida amiga, "só cá andamos cerca de 80 anos..."

terça-feira, 23 de outubro de 2007

Intuição



"Intuição, em filosofia, é o nome dado ao processo de apreensão racional não-discursiva de um fenómeno ou de uma relação. Se a razão discursiva se caracteriza por um processo paulatino que culmina numa conclusão, a intuição é compreensão directa, imediata de algo."
Fonte: Wikipédia



Ultimamente tenho pensado bastante na minha intuição, tendo em conta a ocorrência de alguns acontecimentos algo estranhos, coincidências (ou não...), sonhos, pressentimentos que se confirmam. Não é raro pensarmos numa pessoa, num acontecimento e isso realmente acontecer (pelo menos em certa medida), e associarmos isso a uma coincidência surpreendente. Mas quando começa a acontecer várias vezes... digamos que dá que pensar! (uhh... spooky)

Tenho tido vários espisódios deste género, desde sonhar com uma data de um assunto importante e confirmar que a data era a mesma na "vida real" (tenho de jogar no euromilhões!), a pensar que iria ver naquele dia uma pessoa com quem não estava há bastante tempo e encontrar-me com ela por acaso, a lembrar-me, a caminho do trabalho, de assuntos esquecidos que fiquei de conversar com colegas há muito tempo e, surpreendemente, falarem-me disso justamente nessa manhã... enfim, estas e outras situações que me fazem pensar na minha intuição e recear os pensamentos negativos. Sim, porque os pesadelos tornam-se duplamente desconfortáveis se acreditamos neste tipo de "pressentimento".

Nestes casos, prefiro nem pensar muito na situação, porque acredito que os pensamentos negativos atraem energia negativa, logo, acontecimentos negativos. Quando estamos mal, quando pensamos negativo, tudo à nossa volta sente isso, a tensão, a preocupação, a carga negativa... e tudo o que nos rodeia age de acordo com isso (não estão à espera que vos respondam com amabilidade se forem agressivos, pois não?).


Manter o pensamento positivo nem sempre é fácil, tendemos a centrar o nosso pensamento no que não gostamos, não queremos, não concordamos, na nossa vida, em nós, nos outros, em vez de pensarmos no que queremos melhorar exactamente, nos objectivos, na parte positiva...

Será que são os pensamentos que atraem os acontecimentos ou os acontecimentos que provocam os pensamentos intuitivos?


Mas voltando à intuição... Por mais racionais que sejamos, a intuição não deve, de todo, ser ignorada! Ela faz parte da nossa percepção imediata, da informação sensorial que recebemos do que nos rodeia... e às vezes surpreende-nos! Não a desvalorizo, só por considerar que não me dá factos reais e concretos, por ser menos objectiva. A intuição pode ajudar a esclarecer situações complexas, a clarificar desconfianças, a percepcionar mal estar no outro, a sentir que estamos em sintonias diferentes numa relação, que apesar de nos dizerem uma coisa, mostram outra completamente diferente, ajuda-nos a interpretar o comportamento não verbal de forma tão preciosa como uma medição mais científica e, mais importante que tudo, ajuda-nos a decidir, a seguir um de diferentes caminhos que se colocam à nossa frente. Sem impulsividade nem emotividade, mas como auxílio à ponderação e à rapidez de acção.


Acredito na intuição... talvez como um sexto sentido (estereotipado como pertencente mais às mulheres... que o desmintam os homens!) que nos guia e ajuda a interpretar.


E como dizia o génio...


"Não existe nenhum caminho lógico para a descoberta das leis do Universo - o único caminho é a intuição"
Albert Einstein