Quando me consigo abstrair das rotinas diárias, por vezes penso na forma como agimos enquanto seres por quem o tempo passa a um ritmo mais ou menos acelerado, consoante a nossa vontade e necessidade.
Por um lado, temos tendência a viver numa insatisfação constante, a querermos sempre mais e melhor, às vezes mais no plano material (ter um carro melhor, uma casa melhor, roupas melhores, etc) do que no nosso desenvolvimento enquanto pessoas. Por outro lado, também identifico com frequência a tendência à acomodação, ao conforto de não se fazer nada mais para além das obrigações mínimas (em casa, no trabalho, na relação com os outros) e a manter a vidinha de sempre porque já estamos habituados, porque temos medo de mudar, porque temos medo que corra mal, porque se foi sempre bom assim, para quê mudar?
Consigo identificar estas duas facetas em mim própria, naquilo que vivi e quero viver, e encontro-me tantas vezes a ponderar sobre o futuro e o passado, que quase me esqueço do presente.
Utilizando uma expressão muitas vezes usada pelos mais velhos, "se soubesse o que sei hoje" teria feito algumas coisas diferentes no meu passado. Não é que me prenda a isso, não é que me arrependa do que fiz, sinto-me bem com o meu percurso, mas é claro que podia ter feito mais e melhor, gostava de ter "vivido" mais.
Inevitavelmente, isso faz-me pensar no futuro, naquilo que quero fazer, no que me trará satisfação pessoal e profissional, nos meus objectivos de vida... Era tão bom se pudéssemos consultar a bola de cristal do nosso futuro, pelos menos por três vezes... Eu usava um desses cartuchos agora, para saber o que vou saber no futuro, para saber que opções devo tomar, para saber se sigo a intuição ou a razão mais ponderada. Não me quero arrepender do que não fiz.
Enquanto isso, nos últimos tempos tenho vivido o presente em pause ou slow motion, deixando-me levar como uma garrafa perdida em alto mar, com uma mensagem importante no seu interior, na expectativa quanto ao seu destino (deve ser por isso que tenho dormido mais!).
Mas se tenho passado os dias num ritmo mais lento, obedecendo apenas às rotinas, no meu interior sinto os pensamentos a voarem à velocidade da luz (se acham que escrevo muito e ao pormenor, se espreitassem os meus pensamentos assustavam-se!), num turbilhão que me desorganiza e me deixa presa neste limbo entre a vontade de arriscar, de mudar e viver muito mais para além da vidinha, e a necessidade tremenda de estabilizar e sentir que tenho algo de que me posso orgulhar, de viver prosaicamente em família e numa carreira que garante o bem-estar suficiente.
E são tão fortes estes pensamentos que me assolam à cabecinha, que me vejo em dois filmes no futuro, cada um retratando uma dessas vidas... que me parecem incompatíveis.
Porque é que os sonhos de adolescente, ingénuos e utópicos, se desvanecem, se há quem consiga ir para o mundo ajudar quem precisa? Porque é que é não podemos ter a aventura, o trabalho gratificante, as viagens e a casa, os filhos e a relação estável simultaneamente?
Não sei se está na hora de assentar os pezinhos na terra e despedir-me dos castelos de areia ou de subir mais alto...
A verdade é que não temos as sete vidas dos gatos e, como diz uma querida amiga, "só cá andamos cerca de 80 anos..."