sexta-feira, 24 de agosto de 2007

É mais fácil...

É pena que a natureza humana seja tão básica e primária, tantas vezes. As experiências que já vivemos no passado, a nossa educação e o modo como se desenvolveu a nossa personalidade influenciam a nossa visão do mundo. Encaramos as situações da vida com uns "óculos" só nossos, muito próprios e que às vezes podem estar mal afinados, logo, dão-nos uma visão algo distorcida da realidade. Todos nós distorcemos a realidade. Todos, sem excepção. Distorcemos as situações da forma que mais nos convém, que mais convém aos que nos são próximos. Por isso é que há várias versões da mesma história, muitas vezes. Quanto mais impulsivos formos ao analisar as situações, mais tendemos a montar o cenário que nos convém, sem analisar o resto, sem contextualizar, sem pôr a hipótese de uma explicação diferente. Fazemos tantas vezes isso, quando estamos magoados, irados, emotivos...

O que me tira do sério são os sabichões e sabichonas que têm a mania que sabem o que a vida é e têm sempre conselhos moralistas nos bolsos das calças, para dar e vender. Assumem, interpretam, aconselham, tiram conclusões facilmente, um espectáculo!


Claro que é mais fácil julgar, assumir, descontextualizar, criticar quando temos uma parte incompleta da informação. Dá menos trabalho... É mais fácil atribuir a culpa aos outros, a alguém distante, ou a quem vemos a cara mas sobre quem não sabemos nada. É mais fácil pintar um quadro negro e "enfeiar" o outro que não me é nada e não conheço. É mais fácil acreditar que o outro age mal e envereda por desvios inconsequentes. É mais fácil arranjar um bode expiatório para minimizar a nossa dor, quando às vezes o problema não está fora de nós. É mais fácil acreditar no mais fácil!

8 comentários:

O pensador disse...

Jasmim,já tinha visitado o teu blog algumas vezes e devo dizer que gosto imenso da forma como sabes expor e transcrever os teus pensamentos.
Este ponto que tocastes é deveras interessante e devo dizer,no meu sentido critico,que os seres-humanos tem tendência para se comportarem dessa forma para enriquecerem o seu ego pessoal.

Para sentirmo-nos bons,temos que fazer dos outros maus.

Se um dia visitares um estabelecimento prisional e conversares com os presidiários,ficarás espantada de saber que são todos inocentes!

Obrigado pela tua visita no nosso blog e parabéns pelo bom gosto do teu.

Abraços.

Jasmim disse...

Obrigada pensador, tento apenas colocar em palavras aquilo que vou sentindo ou o que observo... "Defeito" de profissão!

Miss Alcor disse...

Mas que grande post!

A verdade é que temos tendência para facilitar. Deve estar-nos no sangue!
Vemos isso na estrada, nos empréstimos... em tudo!
Portanto, é de esperar que em todos os sectores da vida seja igual: optar pelo mais fácil, sem ter em conta os sentimentos da pessoa!
É muito fácil criticar, julgar... o difícil é mesmo fazê-lo de modo construtivo!
Ainda aqui há dias apeteceu-me berrar com toda a gente à minh a volta! A minha avó confundiu o dia da consulta e só reparou no dia seguinte. Teve que ir ao hospital marcar outra vez. O meu tio chegou aqui e começou a berrar com ela, que tinha de ser menos distraída, que o mal era dela, que agora se calhar não ía ter consulta... e eu não me segurei! Só lhe disse: "Olha lá, não achas que ela já está triste o suficiente para chegares aqui e a única coisa que fazes é criticar???
Nem pensei que ele podia ficar aborrecido comigo, mas fiquei mesmo triste com ele!
É muito fácil estar por cima... difícil é agir de maneira correcta!

Cristina disse...

Há pessoas que simplesmente são irritantes. Trazem frases já tão impregnadas na nossa maneira de ser que, quando encontram alguém que pensa, tentam logo deitá-la abaixo. Tudo o que disseste é verdade: cada pessoa vive no seu próprio mundo e as coisas podem ser azuis para mim e verdes para ti. Nenhuma de nós está errada. Acho que viver numa sociedade assim é uma grande forma de aprendizagem. Quem critica por critica deve ser simplesmente ignorado... Embora, pessoalmente, nunca leve desaforo para casa. Quem me critica sem me ajudar,mando logo passear.

Canochinha disse...

Muito bem visto... A verdade é que adoptar a abordagem que referes é sempre muito mais fácil. Ninguém é perfeito e ninguém consegue ser completamente imparcial... Mas há que conseguir perceber em que situações temos de dar o braço a torcer. Importante, importante é nunca julgarmos que sabemos tudo.

NI disse...

Olá a todos.

Tom a liberdade, pela primeira vez, de comentar neste blog.

Antes de mais, parabéns Jasmim pelo blog.

Nao consegui resistir a comentar este teu post (peço desculpa por alguns erros ortográficos mas estou neste momento em Espanha e o teclado que estou a uitilizar nao tem alguns acentos).

O Pensador referiu que os seres humanos têm tendência para se comportarem da forma que descreveste porquanto pretendem enriquecer o seu ego pessoal. Terá alguma razao. Penso, contudo que o principal motivo é a insegurança e a dificuldade que temos de assumir o erro como inevitavel no ser humano. Isto é, quando assistimos a alguém a errar reproduzimos nessa mesma pessoa (ou no acto), os nossos erros, as nossas frustraçoes, as nossas inseguranças. Saber que outra pessoa, que nao nós, erra permite um sentimento de conforto (afinal nao sou só eu). Nesta perspectiva enquadra-se o ego que o Pensador falou.

Alguém me respondeu (quando eu tinha os meus dezoito anos e precisava de um conselho) que o melhor conselho que me podia dar era nao dar nenhum.

Aquela resposta fez-me pensar muito tempo. Hoje, nos meus pesados 42 anos, sigo aquele princípio acompanhado de um outro:nunca chores por aquilo que fizeste mas por aquilo que poderias ter feito e deixaste de o fazer.

Como alguns de vocês sabem, sou defensora oficiosa na àrea criminal. Nunca produzi qualquer juízo de valor relativamente a qualquer arguido (e acreditem já tive casos que mexem com as emoçes de qualquer ser humano), porquanto o meu trabalho nao e criticar nem julgar. O meu trabalho é encontrar os motivos que possam ter contribuido para um desfexho ou outro.

Esta mesma postura adopto-a no dia a dia, na relaçao com a família, com os amigos, com a sociedade. Evito falar por falar, criticar por criticar. Procuro, acima de tudo, entender porque na osta dos outros vemos as nossas e o ser humano è suficientemente fràgil para ter telhados de vidro.


Peço desculpa por este comentário ter sido longo. Agora despeço-me pois o tempo está a acabar.

Bjs

Jasmim disse...

Olá Ni, bem vinda!
Gostei imenso do teu comentário e concordo plenamente com o que disseste, no fundo, é um mecanismo de defesa que a maioria das pessoas, para não dizer todos os seres humanos, utilizam. Já agora, qual é a tua formação como defensora oficiosa? Direito? Fiquei curiosa porque, pelo discurso, pareces da minha área...

NI disse...

Sim, Jasmim e há já dezanove anos. A minha ocupaçao principal é jurista (nao posso dizer onde dada a minha participaçao nos grandes portugueses ter gerado algumas complicaçoes para mim e para o Pensador)e como gosto bastante da barra do tribunal exerço a advocacia no âmbito do patrocínio oficioso e só na área criminal.

Bjs